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Textos de Breno Procópio
Drão PDF Imprimir E-mail

Por: Breno Procópio

Fim do expediente. Mais uma tarde de correrias, com casos de corrupção, números atualizados da tão afamada gripe suína pelo mundo e desvarios do novo Papa… Chego ao fim do dia com a sensação vazia como se tudo fosse mera repetição, tal qual o sentimento blasé do protagonista de “L’etranger” de Camus. Para desanuviar afrouxo a gravata, tiro o paletó e ando um pouco com uns cigarros no canto da boca para entender tudo. Só mesmo as vozes das ruas explicam esse mistério da vida.

No caminho encontro as cores que tanto busco, é o seu Silas do carrinho de cachorro-quente, que nos recebe com um sorriso maior que o mundo e continua afirmando que o Brizola foi o maior político que o Brasil já teve, ou a dona Maria Flores vendedora de rosas para os defuntos do hospital central. Dona Maria diz que Deus lhe escolheu o destino lá no cartório quando os pais registraram seu nome, depois foi só provação. Gosto mesmo é de conversar com essas figuras nas ruas… Outra cachaça que tenho é a música. Uma canção, dessas perfeitas que unem melodia e letra, pode salvar uma vida ou, pelo menos, dar alegria a uma rotina cinzenta.

Depois de um dia cansativo, entro no ônibus cantando Drão de Gil para acalmar as ideias: “Drão, o amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar”. Sento-me numa poltrona diante de uma estrutura de vidro, quase uma paliçada que dá para a porta de saída. Ali me enfurno em minha canção. O que queria dizer Gil ao compor esses versos? O que sei é que não consigo parar de cantar: “Plantar n’algum lugar / Ressuscitar no chão nossa semeadura / Quem poderá fazer, aquele amor morrer / Nossa caminha dura / Dura caminhada, pela estrada escura… Drão”

De repente, na divisória em vidro à frente, vejo refletida a imagem de uma moça morena que me escutava e sorria com os olhos e com a boca. Ela prestava atenção em mim ou em Gil, ou em Drão?

De minha posição, via a sua imagem refletida, o contorno de sua boca carnuda, os olhos um pouco puxados orientais, o cabelo encaracolado. Mais forte ainda era a energia dos gestos, que mostravam uma mulher bonita.

Quando ela percebeu que eu a tinha notado, fugiu com os olhos, num disfarce de constrangimento. Sem saber o que fazer, voltei a cantar a música do poeta que fala sobre o fim do amor. “Drão não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão / Entende-se infinito, imenso monolito / Nossa arquitetura…”.

- A música é bonita! – comentou a moça morena que deixara de dialogar pelo reflexo do espelho e agora olhava diretamente pra mim.

- Eu também acho, Gil fala muito bem do amor, tentei explicar.

- Você sabe o segredo dessa canção?

- Não, eu disse.

- Gil a compôs depois de perder o seu filho Pedro, o Pedrão, que morreu num acidente de carro.

Ela então cantou: “Drão os meninos são todos sãos / Os pecados são todos meus / Deus sabe a minha confissão / Não há o que perdoar / Por isso mesmo é que há / De haver mais compaixão / Quem poderá fazer, aquele amor morrer / Se o amor é como um grão / Morre nasce trigo / Vive morre pão / Drão, Drão…”

Da boca da mulher morena, a canção de Gil ganhava outros contornos. Quando voltei os meus olhos ao espelho da divisória do ônibus ela deixou-se olhar, encarou-me de frente embora estivesse ali ao meu lado. Soltou um sorriso que refletido chegou a mim.

Piiiiiiiii!!! Soou o sinal do ônibus. Ele parou. A moça pediu licença, sorriu com os olhos e a boca e saiu.

 
A Borboleta e o Mar PDF Imprimir E-mail

(Por: Breno Procópio)¹

- Clarice, entra! Já coloquei o café e o bolo na mesa.

A mãe estava preocupada, era inverno em Itabira e naquela época ao passar das seis o vento chegava frio e silencioso. A menina fora brincar no jardim, como todos os dias, e esquecera-se de tudo. Na parte alta do terreno, quase uma sebe de floresta, Clarice via uma borboleta azul percorrendo um rio de margaridas brancas, um ser azul que fazia rodopios no ar e, de repente, descia para pousar qual uma pluma sobre o botão amarelo. O vento batia mais uma vez e a borboleta era enredada, levada pelo sopro austral para longe da sua casa de margaridas. Clarice saía em disparada, perscrutava com os olhos na busca da mancha azul. No canteiro de ervas, a borboleta já estava ali pousada entre alecrins, tomilhos, alfazemas, comigo-ninguém-pode, capim-cidreira, espinafre, açafrão e outras especiarias que dona Judite cultivava com a ajuda da avó Mena. “Tempos outros de bruxaria, de caldeiras e feitiços”, era o que a avó dizia ao contar as estórias da família. A menina, impressionada, formulava causos em que era uma bruxa esperta, capaz de transformar sapo em salamandra.

- Por que não transforma o bicho em príncipe? É muito melhor, dizia a avó.
- Mas eu não quero um príncipe, vó, quero a salamandra vermelha pra ser minha amiga!

Os olhos graúdos castanhos, o cabelo liso e a pele branca de nuvem davam à Clarice um ar de boneca. Embora já com 12 anos completos, a menina tinha dificuldade de fazer amigos. Preferia o silêncio do jardim, o mundo fantástico do próprio quarto ou a cozinha com seu cheiro de bolo, café moído na hora, broa, pão de queijo, galinha assada, cravo e gordura. Mas o lugar favorito mesmo era uma velha jabuticabeira, ainda de pé, viçosa, no centro do quintal. “Pra mim jabuticaba é o melhor fruto do mundo. Por fora é negro como a noite, mas dentro a gente encontra uma poupa fina, bem branquinha com gosto de algodão doce”, explicava com entendimento.

Quando a mãe Judite perguntava à filha por que não fazia amigos, ela respondia que já possuía tudo que precisava. “Falta só conhecer o mar, para poder morrer”, dizia séria e citava os versos que escutava sempre da boca do pai João Pedro. “Repara, repara nas nuvens; vão desatando / bandeiras de púrpura e violeta / sobre os montes e o mar. / Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando”.

- É do Carlos Drummond. A senhora sabia, mãe?
- Sim, Clarice! Teu pai sempre recorda de Drummond para falar dos tempos em que morou no Rio.

O desejo de conhecer o mar vinha das conversas de pé de cama com o pai. Ele chegava pisando leve, com a barba negra e a voz grave aveludada; mão robusta de engenheiro acolhendo a pequena flor branca de dedos de Clarice. Se punha a contar estórias, e citava os versos do poeta nascido também naquela terra de ferro. “Filha, você vai conhecer o mar primeiro pelos versos de Drummond, depois vou te levar pra abraçar aquele azul”.

Clarice sonhava… Imaginava que o mar era milhares de borboletas azuis a namorar margaridas. Às vezes aparecia uma salamandra vermelha, outra, um besouro gigantesco. São seres marítimos, explicava. Bom mesmo é quando o desejo fica na espreita. O pai João Pedro prometera levar toda a família para viajar. Era só chegar do trabalho que fora fazer na região do Aço para levar a menina e a mãe através da estrada, até a ponta do litoral.

- Clarice, por que demorou? O tempo lá fora está frio e se gripar não vamos viajar!!
- Come o bolo e depois sobe pro banho.
- Mãe, vi o pai ao lado da jabuticabeira, ele estava acenando pra mim.
- Deixa de bobagens, menina, teu pai chega amanhã bem cedo. Ele está vindo para realizar o teu sonho de conhecer o mar.
- Tá bom, mãe. Vou acordar cedinho pra recebê-lo!

De manhãzinha, rumores na parte inferior da casa. Clarice desceu alegre, querendo o café e uma surpresa. No lugar encontrou muitas gentes, parentes de perto e de longe, a mãe no canto, braços da avó Mena, soluços e choro. Em cima da mesa, a manchete do jornal com a foto do pai João Pedro.

“Acidente fatal na estrada: dois engenheiros mortos”

- Clarice, vem cá, disse Judite, acolhendo a menina no colo.
- O que aconteceu com o pai, mãe?
- Ele teve de partir, filha, foi antes da gente! Mas disse que te ama muito e que sempre vai estar ao teu lado!
- Mas ele ia nos levar pra conhecer o mar! O pai prometeu! Abraço de mar, ele disse!
- Eu sei, filha! Mas ele teve de partir, teve de partir…

- Vó, vem! Entra comigo. Vem!

Os olhos de Clarice, de súbito, se voltaram para o corpo pequeno e a cara sardenta de Ana, sua neta. A menina puxava-a pelo braço para que entrassem no mar. À sua frente uma imensidão azul se desfraldava; bem próxima a música dos recifes. Sobre os pés daquela mulher de mais de 70 anos, a areia começava a esquentar. Ela mexia os dedos para sentir a textura áspera, e a pele branca e enrugada estava que entorpecida pelo sol. Os passos eram lentos, receosos da primeira investida das ondas, da longa espera daquele amor antigo. No primeiro contato com o mar, o beijo tácito, o abraço tomando o corpo todo, infindáveis partículas cobrindo braços, pêlos, pernas e lembranças. O mar cobria o corpo de Clarice e Ana, o azul marítimo sobre a pele branca, o universo todo inebriado com o encontro.

- Olha, Ana, é o abraço do mar!
- Vó, o que é?
- É o encontro das borboletas azuis com as margaridas! Vê, Ana! Vê!

¹. Breno Procópio é jornalista, reside no Rio de Janeiro. Em 2009 esteve em Itabira quando acompanhou de perto as atividades do 35° Festival de Inverno. Retornou a cidade outras vezes, levou para o Rio a beleza encantada das montanhas de Minas. O jornalista atua em diferentes áreas da comunicação. Recentemente trabalhou na produção de um catálogo sobre Cachaças Mineiras, além de desenvolver trabalhos para empresas reconhecidas, o último deles para a Samarco.

O lado profissional e também poético do jornalista pode ser conferido em seu blog: http://prosacomcultura.wordpress.com/

 



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