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(Por: Breno Procópio)¹
- Clarice, entra! Já coloquei o café e o bolo na mesa.
A mãe estava preocupada, era inverno em Itabira e naquela época ao passar das seis o vento chegava frio e silencioso. A menina fora brincar no jardim, como todos os dias, e esquecera-se de tudo. Na parte alta do terreno, quase uma sebe de floresta, Clarice via uma borboleta azul percorrendo um rio de margaridas brancas, um ser azul que fazia rodopios no ar e, de repente, descia para pousar qual uma pluma sobre o botão amarelo. O vento batia mais uma vez e a borboleta era enredada, levada pelo sopro austral para longe da sua casa de margaridas. Clarice saía em disparada, perscrutava com os olhos na busca da mancha azul. No canteiro de ervas, a borboleta já estava ali pousada entre alecrins, tomilhos, alfazemas, comigo-ninguém-pode, capim-cidreira, espinafre, açafrão e outras especiarias que dona Judite cultivava com a ajuda da avó Mena. “Tempos outros de bruxaria, de caldeiras e feitiços”, era o que a avó dizia ao contar as estórias da família. A menina, impressionada, formulava causos em que era uma bruxa esperta, capaz de transformar sapo em salamandra.
- Por que não transforma o bicho em príncipe? É muito melhor, dizia a avó. - Mas eu não quero um príncipe, vó, quero a salamandra vermelha pra ser minha amiga!
Os olhos graúdos castanhos, o cabelo liso e a pele branca de nuvem davam à Clarice um ar de boneca. Embora já com 12 anos completos, a menina tinha dificuldade de fazer amigos. Preferia o silêncio do jardim, o mundo fantástico do próprio quarto ou a cozinha com seu cheiro de bolo, café moído na hora, broa, pão de queijo, galinha assada, cravo e gordura. Mas o lugar favorito mesmo era uma velha jabuticabeira, ainda de pé, viçosa, no centro do quintal. “Pra mim jabuticaba é o melhor fruto do mundo. Por fora é negro como a noite, mas dentro a gente encontra uma poupa fina, bem branquinha com gosto de algodão doce”, explicava com entendimento.
Quando a mãe Judite perguntava à filha por que não fazia amigos, ela respondia que já possuía tudo que precisava. “Falta só conhecer o mar, para poder morrer”, dizia séria e citava os versos que escutava sempre da boca do pai João Pedro. “Repara, repara nas nuvens; vão desatando / bandeiras de púrpura e violeta / sobre os montes e o mar. / Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando”.
- É do Carlos Drummond. A senhora sabia, mãe? - Sim, Clarice! Teu pai sempre recorda de Drummond para falar dos tempos em que morou no Rio.
O desejo de conhecer o mar vinha das conversas de pé de cama com o pai. Ele chegava pisando leve, com a barba negra e a voz grave aveludada; mão robusta de engenheiro acolhendo a pequena flor branca de dedos de Clarice. Se punha a contar estórias, e citava os versos do poeta nascido também naquela terra de ferro. “Filha, você vai conhecer o mar primeiro pelos versos de Drummond, depois vou te levar pra abraçar aquele azul”.
Clarice sonhava… Imaginava que o mar era milhares de borboletas azuis a namorar margaridas. Às vezes aparecia uma salamandra vermelha, outra, um besouro gigantesco. São seres marítimos, explicava. Bom mesmo é quando o desejo fica na espreita. O pai João Pedro prometera levar toda a família para viajar. Era só chegar do trabalho que fora fazer na região do Aço para levar a menina e a mãe através da estrada, até a ponta do litoral.
- Clarice, por que demorou? O tempo lá fora está frio e se gripar não vamos viajar!! - Come o bolo e depois sobe pro banho. - Mãe, vi o pai ao lado da jabuticabeira, ele estava acenando pra mim. - Deixa de bobagens, menina, teu pai chega amanhã bem cedo. Ele está vindo para realizar o teu sonho de conhecer o mar. - Tá bom, mãe. Vou acordar cedinho pra recebê-lo!
De manhãzinha, rumores na parte inferior da casa. Clarice desceu alegre, querendo o café e uma surpresa. No lugar encontrou muitas gentes, parentes de perto e de longe, a mãe no canto, braços da avó Mena, soluços e choro. Em cima da mesa, a manchete do jornal com a foto do pai João Pedro.
“Acidente fatal na estrada: dois engenheiros mortos”
- Clarice, vem cá, disse Judite, acolhendo a menina no colo. - O que aconteceu com o pai, mãe? - Ele teve de partir, filha, foi antes da gente! Mas disse que te ama muito e que sempre vai estar ao teu lado! - Mas ele ia nos levar pra conhecer o mar! O pai prometeu! Abraço de mar, ele disse! - Eu sei, filha! Mas ele teve de partir, teve de partir…
- Vó, vem! Entra comigo. Vem!
Os olhos de Clarice, de súbito, se voltaram para o corpo pequeno e a cara sardenta de Ana, sua neta. A menina puxava-a pelo braço para que entrassem no mar. À sua frente uma imensidão azul se desfraldava; bem próxima a música dos recifes. Sobre os pés daquela mulher de mais de 70 anos, a areia começava a esquentar. Ela mexia os dedos para sentir a textura áspera, e a pele branca e enrugada estava que entorpecida pelo sol. Os passos eram lentos, receosos da primeira investida das ondas, da longa espera daquele amor antigo. No primeiro contato com o mar, o beijo tácito, o abraço tomando o corpo todo, infindáveis partículas cobrindo braços, pêlos, pernas e lembranças. O mar cobria o corpo de Clarice e Ana, o azul marítimo sobre a pele branca, o universo todo inebriado com o encontro.
- Olha, Ana, é o abraço do mar! - Vó, o que é? - É o encontro das borboletas azuis com as margaridas! Vê, Ana! Vê!
¹. Breno Procópio é jornalista, reside no Rio de Janeiro. Em 2009 esteve em Itabira quando acompanhou de perto as atividades do 35° Festival de Inverno. Retornou a cidade outras vezes, levou para o Rio a beleza encantada das montanhas de Minas. O jornalista atua em diferentes áreas da comunicação. Recentemente trabalhou na produção de um catálogo sobre Cachaças Mineiras, além de desenvolver trabalhos para empresas reconhecidas, o último deles para a Samarco.
O lado profissional e também poético do jornalista pode ser conferido em seu blog: http://prosacomcultura.wordpress.com/ |