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A figura de cabelos curtos, lisos e ligeiramente desalinhados, tinha no semblante um aspecto fragilizado. Ao mesmo tempo, talvez pelo jeito de olhar, deixava claro quanto de si mesma era mais forte do que a aparência.
Tinha uma afeição especial pelos seres noturnos, tão facilmente identificáveis pelo silêncio que a noite em roça traduz. O barulho do coaxo, a coruja com seus olhos brilhantes, a águia em repouso com ligeiros “gritos” solitários – ela os tinha como prenúncio. Prenúncio de que o dia amanheceria ensolarado e que, com a água que corria límpida e vívida, teria tempo de sobra para “aguar” seu jardim e seus canteiros organizados.
No fogão, cujas brasas sempre lhe pareciam especiais arabescos mágicos, deixava por horas a panela de ferro a cozinhar o feijão e as lentilhas. Pela panela tinha grande apreço. Pertencera à bisavó de alguém da vila onde agora morava. Não era panela qualquer. Era de uma bisavó, para ela sem nome, que nascera nos idos da escravatura. Embora não tivesse vivido as algemas da escravidão legal, morava com os pais escravos. Depois, segundo ficou sabendo, dona Bisa morreu no analfabetismo dos não-escravos legais, salva pela lei Áurea e condenada pelas condições de um país cujas leis normalmente geram mais benefícios para seus próprios controladores. Dona Bisa foi mais uma pária do sistema.
Sendo assim, a panela tinha aquele cheiro da história, das alegrias e do sofrimento – continha os ingredientes que davam sabor especial ao feijão e lentilhas que ela adorava. Era mesmo uma figura!
Depois do almoço, coava o café novinho e ficava por minutos inspirando o cheiro que se embrenhava pela pequena casa. Sentava na beirinha do fogão e degustava toda mansa o líquido que continha a mesma negritude da noite. “Café tem sabor de infância. A vó na cozinha fervia o leite fresquinho enquanto o café escorria, quase a pingos, pelo coador de pano” – este era um dos pensamentos que lhe vinha enquanto o café descia garganta abaixo.
Gosto de lembrar esta figura de pés descalços, andando entre canteiros, arrancando o matinho que insistia em sair por entre as margaridas no jardim. Circulando a casa, pequeninas flores coloridas pareciam ter saído de alguma tela – quem sabe pintura sonhada por Van Gogh.
A luz que atravessa a retina às vezes nos engana. Eu, por longas décadas, a acompanhei de longe, por fora, sem me atrever a adentrar aquela alma clara. Até que, em um dia qualquer, não a vi na pequena varanda bordada com cadeira de balanço e, num cantinho preparado para a filtragem do sol, violetinhas de todas as cores. De tão paralisada, atravessei a portinhola baixinha que marcava a entrada salpicada de pedrinhas brancas. Ressalto que a cada lado deste caminho, de pouco mais de 30 metros, as pétalas muito brancas das margaridas refletiam de tal maneira o sol que era quase impossível olhá-las de perto.
Caminhei devagarzinho, com este tipo de pressentimento que o ser humano insiste em ter quando algo parece não estar no lugar. Tudo bem que não fui convidada a atravessar aquele santuário, mas uma vez lá, prossegui pela lateral direita da casa. Num repente, meus olhos se deslumbraram: aquilo não era real. No quintal, a água jorrava feito uma pequena cachoeira formando uma lagoa delicada e charmosa. Os canteiros regulares continham ervas de vários tipos de chás – o que me remeteu aos diferentes aromas que sentia quando por perto dali estava eu a observá-la. E então eu o vi. Meu Deus! Foi como ser hipnotizada, tomada por uma onda de energia completa da pureza buscada e nunca alcançada. Ali estava, ainda que naturalmente pela própria característica da região e do tipo de solo não deveria estar. Alecrim do campo. O mesmo que meu avô nos fazia usar para varrer a casa em épocas especiais – porque o perfume é inigualável. Há quatro décadas não via um desses. E então ele estava ali.
Tomada de súbita estranheza, percebi um ligeiro movimento. Ela surgiu da água, feito sereia, mas com todo o corpo de mulher (o que me lembrou Modigliani). Parecia realmente frágil. Não. Não era. Naquele momento tive mesmo a certeza. Era de uma força inteira, sem meias nada: meias verdades, meias mentiras, meias vidas, meias dores, meias alegrias.
Pela invasão quis fugir, mas no aceno e sorriso gentis, encontrei o convite para ficar. Por lá estive sem o contar das horas, apenas no ouvir e calar-me completamente diante do que me parece graça divina: sabedoria.
Saí com meu montinho de alecrim - não para fazer vassoura, ainda que meu lado bruxa sinta falta da que aposentei há anos. Cheguei em casa com aquele cheirinho inconfundível, todas as lembranças se atropelando. Era noite. Talvez madrugada pela brisa um pouquinho mais fria, a lua impregnada do reflexo daqueles olhos intensamente amorosos.
Por longo tempo esperei que tudo se repetisse e só então compreendi que não há repetições na vida. Na verdade, não fosse meu deslumbramento ao ouvi-la aquele dia, teria saído de lá não apenas com meu alecrim, mas também com este entendimento.
Ainda observo a casinha de longe. Ainda observo aquela inteireza. Ainda observo a beleza perfeita de quem aprendeu a viver cada dia até o seu exaurir – mas, feliz.
(Só sinto falta mesmo de aquela noite nunca mais ter chegado para outros aprendizados. Agora compreendo. Sou eu quem deve caminhar sozinha e aprender. Tal como ela, a ouvir os sons noturnos e identificar as palavras que chegam e nos fazem crescer).
Vou só porque a solidão sou eu duas vezes. Corpo inteiro (dentro e fora) e reflexo no espelho.
Heiko Mayonaka |