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Textos de Heiko Mayonaka
Do tempo PDF Imprimir E-mail

Talvez fosse a quietude. O jeito como deslizava os pés. A maneira como tocava o entorno sempre com a mesma delicadeza e cuidado.

Havia um instante do dia em que sua presença deixava de estar. Num sumiço que parecia intransigência. No entanto, tornava-se vulto tão rápida e delicadamente que não se percebia. Adentrava aquela trilha como pássaro em voo. Saltava, soltava-se. Era a visão nua da liberdade que se anseia - por vezes.

Na parte mais alta do caminho parava, tocava gentilmente a grande árvore que erguia as galhas seculares para o céu. A copa tinha este olhar voltado para o azul - o que tornava tudo a sua volta de uma “beleza quase menor”. Era um abraço íntimo. Duas formas completamente diferentes em suas naturezas corpóreas e, ao mesmo tempo, tão próximas e ligadas que a aspereza do tronco compunha a delicadeza da pele bronzeada.

O destino sabia-se de cor: dali passaria pelo caminho marcado apenas por suas próprias pegadas e então alcançaria sua busca. No repouso ficaria por horas a admirar e ouvir a água que descia voraz e que ao cruzar diretamente com a imensa pedra branca, gerava a explosão. A chuva acontecia exatamente ali, com a água transbordando em gotas para todos os lados.

Viria, em seguida, aquele último raio de luz do dia, filtrado pelas árvores, mas ainda firme no propósito de despedir-se, marcar-se como presença, dizer: “sim, estou aqui. Mais um dia, por mais uma vez, mais um instante e mais este nosso segundo juntos. Sim, estou aqui”. E antes que se esboçasse o desejo de também despedir-se, lá estavam os primeiros vestígios dela. Dependendo do humor, de um prata reluzente; dependendo... uma gigante bola oscilando entre o ouro e o desejo de chegar ao fogo, embora soubesse de si mesma que jamais chegaria. Lua cheia era o máximo que alcançaria a cada completar de ciclos.

No aconchego da terra, que filtrava seus próprios suspiros, acompanhava todos os ciclos, todas as estações e suas mudanças. A cada chegar diário, mesmo quando tudo aparentava se repetir, sentia as transições que cada tempo cobra e necessita.

(Quase tudo é tomado de um tipo especial de poder. Está dentro, na essência, naquilo que não se pode mexer, no que é parcialmente imutável tamanho o cuidado pela preservação. O instante da magia para alguns se dá exatamente no momento em que estão de olhos fechados, dormindo na sôfrega necessidade de viver. Para outros, a magia está, é presença ainda quando os olhos se fecham. Estes são os que levam a todo canto esta leveza, este olhar profundo que é reflexo, e tão somente reflexo da paixão e amor que os mantém conectados a cada ser).

Agora, não sei bem se era a quietude, ou o jeito como deslizava os pés, ou até mesmo se tinha alguma relação com aquela maneira especial de tocar. Já não sei. Tudo é tão talvez às vezes que fica difícil chegar a uma resposta. Também não sei qual relevância isso poderia ter. Cá, com minhas impressões, sinto que não tem nenhuma. Mas podem querer perguntar: o que fazer com tantas linhas? Ideia que não chegou ao fim, mesmo que o começo tenha sido mais predicado que sujeito.

Vou tentar consertar, clarear talvez. Era um menino de pele queimada, olhos e cabelos muito escuros, vivia no tempo dos livros de histórias. Carregava água no balde de madeira, era um gamela fora do tempo.

 
Anjos caídos PDF Imprimir E-mail

Anjos perdem as asas?

Borboletas caem serenamente e para sempre inertes?

Quanto de tudo e todas as coisas que nos cercam são realmente avistados com a peculiaridade de um olhar delicado, gentil, fiel e amoroso? (É que neste instante, folhas se agitam do lado de fora, o vento que anuncia a chegada do inverno me provoca calafrio. Fecho as janelas, mas entre a grama e as árvores, são muitos os sons que chegam – com eles, o pensamento de um entardecer pálido e às vezes medroso).

Abro uma gretinha da janela. Não há mais o que se avistar. A lua minguante e a ausência de estrelas torna a noite breu. Contínuos, apenas os sons facetados. Identifico um, dois, três... numa sequência impotente diante desta voracidade dos destemidos seres noturnos. Silêncio, no entanto, reside em mim. Este sossego de cheiro de mato, de alecrim do campo, do limoeiro, da laranjeira. Sossego que traz à alma cores divinizadas. Sinto agora um calor gostoso, não mais a presença do vento do inverno, mas uma onda delicada que me aconchega. Sinto como se uma mão generosa tocasse levemente meus ombros e fizesse, com a mesma sutileza, pequenas pressões sobre os nódulos que persistem em minhas costas. Tão suave! O corpo quer adormecer – talvez eu caia no sono, profundamente entregue a este toque, a esta sensação de que sons, cores, almas e presença confabulam por mim e para mim.

Mas não quero repousar. Não neste instante quando tudo parece tão generosamente bom. Faço um ligeiro movimento, como que a girar o corpo, mas paro no mesmo repente do impulso. Asas imensas me tomam num abraço. Fecham-se ao meu redor. Do rosto, como dizer ao certo (?), parece-me que o sangue esvaiu-se, tomado de um súbido paralisar do coração que, há segundos, pulsava intenso. Que se dá em mim? Medo? Surpresa? Mas aqui estão elas, ao meu redor. Sim, estão. Aquecem e felicitam. Assim me enrosco, deixo-me deslizar por esta plumagem quente, sedosa e macia como flocos de algodão.

É tão somente amor o que sinto. Tão somente amor. Por tudo, por todas as coisas, pelos seres que passeiam seguros na escuridão que reveste esta noite. Ajoelhamos juntos e a oração está feita por dentro, com todas as palavras que não precisam ser ditas porque são marcadas pelo entrelaçar das mãos: anjo e humana. Sinto que teu rosto conheço de cor. Sinto que tua pele é como a minha: queimada por me acompanhar nas andanças. Mas teus olhos, teus olhos não podem ser senão o negrume desta noite. A exatidão da perfeição divina.

- Eu também te amo. Tão intensa quanto divinamente.

- Eu também te amo. Tão intensa quanto humanamente.

- Preciso ir...

- Assim?

- Sim. Estrela do céu me chama, se não vou, também não volto. Ficar é perder as asas. Ir é mantê-las para refazer a viagem. Num destes retornos virás comigo. Chegará o tempo em que em campo aberto estaremos. Ocupado pelas tuas sagradas margaridas, suas imensas borboletas azuis e lá no fim haverá teu mural de lembranças, de faces, de saudades – para que não te esqueças do tempo em que aqui estivestes.

- Voltas antes que eu me vá?

- Tua necessidade de mim é o que nos permite tão grande intimidade. Se não me precisa, não retorno a segurar tuas mãos, ou a te envolver com minhas asas. Sou apenas presença que não podes sentir. Mas quando me necessitas assim, então é certo vivermos o aconchego, o entrelaçar. E sim, meus olhos são a face da noite que vês.

- Devo deixar então que partas. Porque embora meu desejo seja de que fiques por mais tempo, não mais necessito de ti. Estou completa, inteira. Posso ousar dizer: feliz?

- Compreendeste bem a diferença entre o desejo e a necessidade. É tão deliberado meu amor por ti que temo, às vezes, perder minhas asas – apenas para não partir. Mas se as perco em lugar errado, não voltarei jamais a segurar-te com minhas mãos.

- Vá porque sei que necessitarei de ti. Há sempre o momento em que todas as ondas me puxam e como não sei nadar, corro o risco de perder-me entre sereias e algas. Serei devorada pela voracidade da vida?

- Não. Tua voracidade tem impedimentos. Haverá que contê-la de momento a momento, de tempos em tempos. Como já tem feito durante esta infinitude.

- Atravessei o tempo com a espada embainhada. Haverei de retirá-la?

- Apenas deixe que me vá agora. Respostas são tuas próprias perguntas diante das indecisões. Farás o que for necessário. Apenas faça.

- Eu te amo tão intensa quanto humanamente.

- Eu te amo tão intensa quanto divinamente.

 

Adormeci com o cheiro de alecrim. Acordei com uma pequenina pena enroscada no cabelo. Dia claro e o sol está radiante.

 

Heiko Mayonaka

 
Última noite PDF Imprimir E-mail

A figura de cabelos curtos, lisos e ligeiramente desalinhados, tinha no semblante um aspecto fragilizado. Ao mesmo tempo, talvez pelo jeito de olhar, deixava claro quanto de si mesma era mais forte do que a aparência.

Tinha uma afeição especial pelos seres noturnos, tão facilmente identificáveis pelo silêncio que a noite em roça traduz. O barulho do coaxo, a coruja com seus olhos brilhantes, a águia em repouso com ligeiros “gritos” solitários – ela os tinha como prenúncio. Prenúncio de que o dia amanheceria ensolarado e que, com a água que corria límpida e vívida, teria tempo de sobra para “aguar” seu jardim e seus canteiros organizados.

No fogão, cujas brasas sempre lhe pareciam especiais arabescos mágicos, deixava por horas a panela de ferro a cozinhar o feijão e as lentilhas. Pela panela tinha grande apreço. Pertencera à bisavó de alguém da vila onde agora morava. Não era panela qualquer. Era de uma bisavó, para ela sem nome, que nascera nos idos da escravatura. Embora não tivesse vivido as algemas da escravidão legal, morava com os pais escravos. Depois, segundo ficou sabendo, dona Bisa morreu no analfabetismo dos não-escravos legais, salva pela lei Áurea e condenada pelas condições de um país cujas leis normalmente geram mais benefícios para seus próprios controladores. Dona Bisa foi mais uma pária do sistema.

Sendo assim, a panela tinha aquele cheiro da história, das alegrias e do sofrimento – continha os ingredientes que davam sabor especial ao feijão e lentilhas que ela adorava. Era mesmo uma figura!

Depois do almoço, coava o café novinho e ficava por minutos inspirando o cheiro que se embrenhava pela pequena casa. Sentava na beirinha do fogão e degustava toda mansa o líquido que continha a mesma negritude da noite. “Café tem sabor de infância. A vó na cozinha fervia o leite fresquinho enquanto o café escorria, quase a pingos, pelo coador de pano” – este era um dos pensamentos que lhe vinha enquanto o café descia garganta abaixo.

Gosto de lembrar esta figura de pés descalços, andando entre canteiros, arrancando o matinho que insistia em sair por entre as margaridas no jardim. Circulando a casa, pequeninas flores coloridas pareciam ter saído de alguma tela – quem sabe pintura sonhada por Van Gogh.

A luz que atravessa a retina às vezes nos engana. Eu, por longas décadas, a acompanhei de longe, por fora, sem me atrever a adentrar aquela alma clara. Até que, em um dia qualquer, não a vi na pequena varanda bordada com cadeira de balanço e, num cantinho preparado para a filtragem do sol, violetinhas de todas as cores. De tão paralisada, atravessei a portinhola baixinha que marcava a entrada salpicada de pedrinhas brancas. Ressalto que a cada lado deste caminho, de pouco mais de 30 metros, as pétalas muito brancas das margaridas refletiam de tal maneira o sol que era quase impossível olhá-las de perto.

Caminhei devagarzinho, com este tipo de pressentimento que o ser humano insiste em ter quando algo parece não estar no lugar. Tudo bem que não fui convidada a atravessar aquele santuário, mas uma vez lá, prossegui pela lateral direita da casa. Num repente, meus olhos se deslumbraram: aquilo não era real. No quintal, a água jorrava feito uma pequena cachoeira formando uma lagoa delicada e charmosa. Os canteiros regulares continham ervas de vários tipos de chás – o que me remeteu aos diferentes aromas que sentia quando por perto dali estava eu a observá-la. E então eu o vi. Meu Deus! Foi como ser hipnotizada, tomada por uma onda de energia completa da pureza buscada e nunca alcançada. Ali estava, ainda que naturalmente pela própria característica da região e do tipo de solo não deveria estar. Alecrim do campo. O mesmo que meu avô nos fazia usar para varrer a casa em épocas especiais – porque o perfume é inigualável. Há quatro décadas não via um desses. E então ele estava ali.

Tomada de súbita estranheza, percebi um ligeiro movimento. Ela surgiu da água, feito sereia, mas com todo o corpo de mulher (o que me lembrou Modigliani). Parecia realmente frágil. Não. Não era. Naquele momento tive mesmo a certeza. Era de uma força inteira, sem meias nada: meias verdades, meias mentiras, meias vidas, meias dores, meias alegrias.

Pela invasão quis fugir, mas no aceno e sorriso gentis, encontrei o convite para ficar. Por lá estive sem o contar das horas, apenas no ouvir e calar-me completamente diante do que me parece graça divina: sabedoria.

Saí com meu montinho de alecrim - não para fazer vassoura, ainda que meu lado bruxa sinta falta da que aposentei há anos. Cheguei em casa com aquele cheirinho inconfundível, todas as lembranças se atropelando. Era noite. Talvez madrugada pela brisa um pouquinho mais fria, a lua impregnada do reflexo daqueles olhos intensamente amorosos.

Por longo tempo esperei que tudo se repetisse e só então compreendi que não há repetições na vida. Na verdade, não fosse meu deslumbramento ao ouvi-la aquele dia, teria saído de lá não apenas com meu alecrim, mas também com este entendimento.

Ainda observo a casinha de longe. Ainda observo aquela inteireza. Ainda observo a beleza perfeita de quem aprendeu a viver cada dia até o seu exaurir – mas, feliz.

(Só sinto falta mesmo de aquela noite nunca mais ter chegado para outros aprendizados. Agora compreendo. Sou eu quem deve caminhar sozinha e aprender. Tal como ela, a ouvir os sons noturnos e identificar as palavras que chegam e nos fazem crescer).

Vou só porque a solidão sou eu duas vezes. Corpo inteiro (dentro e fora) e reflexo no espelho.

Heiko Mayonaka

 



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