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Feito estampa, os traços russos e alemães marcam de forma expressiva a dona de uma personalidade marcante, mesmo aos 66 anos. “O que a gente fez de si, ó, está na cara, meu amor.”
O ano era o de 1945 quando veio a este mundo. Uma época em que a humanidade viu o poder de destruição de uma bomba atômica. E é por isso que ela se considera uma filha da guerra. Muitos não sabem, mas Elke Grunnupp Evremides, ou melhor, Elke Maravilha, nasceu na Rússia. É filha de uma nobre e de um prisioneiro. Veio para o Brasil aos seis anos. Os pais dela queriam uma vida mais digna, longe das dores, de hostilidades, das lutas entre os povos e da perseguição. “Para fugir da guerra, meu pai teve três países para escolher. Eram nações que acolhiam os imigrantes na época: Brasil, Nova Zelândia e o Canadá (...) Ele sempre soube. E dizia que o Brasil era o país das infinitas possibilidades reais!”, conta Elke.
Vivendo hoje em um apartamento de paredes vermelhas no bairro do Leme, próximo a Copacabana, no Rio de Janeiro, Elke mostra com muito carinho um quadro. Nele, o poema de Itamar Assunção, “Apátrida de Itabira”. Um título que faz Maravilha rever algumas páginas de seu livro da vida.
Quando a família desembarcou na Baía de Guanabara, ficou de quarentena. Uma tentativa de evitar a disseminação das doenças de outros países. O pai de Elke, George Grunnupp, decidiu-se por trabalhar no campo. Depois de publicar um anúncio em um jornal, recebeu uma proposta de emprego para cuidar de uma fazenda em Itabira do Mato Dentro.
“Digo que fui desmamada no alambique. Adoro cachaça de Minas!”, diz. Entre um copo e outro da mais pura branquinha, Elke se lembra que o pai era bastante exigente em tudo. Ela tinha que ouvir música clássica todos os dias. O pai ainda ensinou a menina outras línguas. Uma garantia de emprego para o futuro. “Ao completar 12 anos, papai quis que eu arranjasse um emprego para seguir minha vida de forma independente. Tive que me virar. Aí virei professora. E era muito boa na arte de ensinar.”, finaliza.
Foi assim que se mudou de Itabira para Belo Horizonte e, mais tarde para o Rio. Experimentou outras áreas: de professora a bancária. (Nesse caso, ela estava andando na rua quando uma pessoa lhe disse, ‘Você quer vir trabalhar aqui, no atendimento às pessoas?’ E, claro, logo ela respondeu: sim!”). E De bancária a modelo, aos vinte e poucos anos de idade. “Eu nunca escolhi o que ia fazer na vida. Sempre fui a escolhida.” Elke fez sucesso nos desfiles e trabalhou para importantes estilistas nas décadas de 1960 e 1970. “A primeira vez que entrei em uma passarela, parei e pensei: Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui? Aí, pensei de novo e tinha uma resposta. Quer saber, já que estou aqui, vou ser eu mesma. E disseram que tinha inovado por causa disso!”. (Você pode imaginar como Elke era nas passarelas?) Elke tem experiência de vida. Mas é apátrida, sem nacionalidade – Isso por causa de uma manifestação contrária que fez a ditadura militar nos anos 70. Da poesia de Itamar, “Elke, mulher maravilha, Albira catalã, pop star mineira da Síria, curió corruíra, Orquídea baunilha”.
Programa do Chacrinha: Uma Elke Maravilha!
Mas Elke ficou conhecida mesmo em todo o Brasil no programa do Chacrinha. Para boa parte do público, a jurada do programa vestia roupas estranhas... Mas tinha uma simpatia ímpar! Quando foi convidada para ir ao programa, não sabia nada sobre o Velho Guerreiro. Aliás, apenas que ele era um fenômeno de comunicação. Antes de ir, leu algo sobre o perfil do apresentador e resolveu colocar em prática o que fazia e tinha de melhor: o inusitado, a alegria! “Através de leituras, descobri a princípio que ele era um homem muito doido com uma roupa legal. E agora? Então resolvi ir com uma buzina... era uma buzina indiana, pedi a produção do programa que arranjasse uma e entrei no palco buzinando! Depois disso ficamos amigos... ele nunca me chamou só de Elke, mas sim de Elke Maravilha”, conta sorrindo.
Painho era como Elke Maravilha chamava Chacrinha. São tempos que ela não esquece. Para quem viveu essa época, Elke relembra. “Eu fazia parte do programa do Chacrinha… Não entendi muito aquela bagunça e percebi que não tinha que entender… Ele era um gênio, verdadeiro representante da cultura brasileira. Ele é de libra, de Pernambuco… E sempre me inspirei também nos pernambucanos… Chacrinha era um pastoril, um velho matraca… um nordestino.”
O en contro com o conterrâneo Drummond
O encontro de Elke Maravilha com Carlos Drummond de Andrade foi em uma Avenida movimentada no Rio de Janeiro, há quase 35 anos. Elke confessa que sempre teve vontade de conhecer Drummond. Quando o viu, estremeceu. Ele veio na direção dela e disse, “Elke, como pode, vejo você na TV. Você é mineira! Mas muito diferente... Sua alma é muito diferente de uma alma Itabirana. Mineiro é aberto até a página 2. E você não tem nada disso! Sempre falante, comunicativa”. Mas Elke, de coração mineiro e para a surpresa de Drummond, afirmou. “Uai, Drummond, eu nasci na Rússia, né? E genética não tem jeito, não se nega.”
Do meu encontro com Elke
Uma mandala, um queijo minas, um colar e cachaça. Presentes das Gerais, comprados no Mercado Central de Belo Horizonte. Elke recebeu tudo isso distribuindo abraços apertados. Eu e meus amigos passamos pela sala. (Uma verdadeira obra de arte, com seus quadros, fotos...) Conclusão ao olhar aquele ambiente? Na arte da convivência, Elke tem doutorado na escola da vida. Espiritualista, gosta de falar dos signos dos zodíacos. E como bom mineiro, conta uma história bem contata.
Elke é universal. Em russo, Elke significa Alce. O “Maravilha” foi um presente de um amigo jornalista. Depois de se sentar na cama, pega várias fotos e nos mostra suas montagens, esse jeito que ela se apresenta ao mundo. Uma chama atenção. É uma fotografia que cai entre os dedos dela. "Essa aqui é em homenagem a Iemanjá! Linda!" A conversa durou cerca de 8 horas. Nenhum detalhe foi esquecido. “Eu não tenho medo de ficar velha. Só não gostaria de ficar ultrapassada. Sou de hábitos simples. Gosto de ler pessoas. Gosto de conviver com pessoas.” |