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Textos de Sander Kelsen
Fim do expediente PDF Imprimir E-mail

(Por: Sander Kelsen¹)

(Noite de quinta-feira, depois do expediente, pós-horário de pico, na volta para casa.) Não precisa nem de relógio. Quando o frio aperta e a lua se completa entre o pirulito e o antigo prédio do BEMGE, no centro de Belo Horizonte, Dona Aparecida se recolhe. O banco, o guarda-sol e as memórias de mais um dia de trabalho cabem direitinho no carrinho de pipoca. Para não perder o produto, fez promoção e tentou ganhar o cliente pela necessidade de enganar a fome. O cheiro de amendoim subiu em direção às janelas dos edifícios. Ela então pitou o último cigarro de palha... Bem calma, olhando ao redor. Com um pouco de esforço levou para um lugar especial o que garante o sustento da casa, no Aglomerado da Serra. Observei tudo. Aprendi muito com esta senhora de cabelos loiros e pele de maracujá maduro.

(O termômetro eletrônico marcava 15º graus. Muito adequado para observar mais e mais!) À espera, antes de o ônibus chegar, recordei memórias, achados de seis anos. Eu era apenas um estudante do colegial e descia quase todos os dias a Rua da Bahia para chegar a Praça Sete. Um dia me falaram que na vida tudo é impermanente. Mas hoje discordei. Não! Cheguei a esta conclusão, convicto. Ainda hoje fiz exatamente o mesmo caminho de 2005.  Agora, o contexto é diferente: sou assalariado e esse tinha sido mais um prazeroso dia no trabalho. Não hesitei, cumprimentei: “Boa noite, memórias!” Isso em pleno cruzamento da Amazonas com Afonso Pena. Impressionante! Elas ainda continuavam lá, do jeito que tinha deixado quando completava 17 anos. Os prédios, as lojas, o corre-corre da cidade, a beleza das luzes, as árvores, os sons. (A vida pulsa nesse centro de possibilidades).

(Ainda analisando esse meu dia, continuo no ponto de ônibus, com o desejo de voltar à minha querida casa depois de uma semana e quatro dias fora) Ao olhar em direção à Rua Rio de Janeiro, percebi que o microfone tem o poder de celebrizar quem tem o passaporte para segurá-lo. Mais cedo, ainda hoje, entrevistei populares por lá.  As pessoas paravam, contavam causos e “segredos” de suas vidas. Algumas confessavam, “já te vi na TV”. Outras armavam um verdadeiro circo para se verem na tela. Mas de noite, quando saio do trabalho e volto para casa, sou mais um anônimo. No ponto de ônibus, às nove da noite, ninguém me reconhece, ninguém desconfia que apareço na TV. Por dentro, dou gargalhadas. Essa última é a realidade que me agrada. As pessoas passam. Nem sequer ousam saber que agora são personagens de minhas crônicas secretas...

(O ônibus chega.) Nada mudou: ainda tenho dificuldade para ler o letreiro luminoso que diz “1509 / Tupi.” Sento-me ao lado de Patrícia. Ela não me reconheceu. Estudou comigo na quarta e quinta séries (1998 – 1999). Talvez só eu – dentro daquele ônibus – sabia que ela tinha um apetite insaciável quando o assunto era namorado. E também, ‘também’ com certeza, só eu sabia que ela já colocou pó de giz no copo da professora. Uma peraltice daquelas, que hoje é insignificante. Mas, na época, significou muito: quase foi pega pela Senhora Conceição que, para variar, chegou de supetão na sala de aula.

(O 1509 acelera, acelera. Meu coração também: quase na casa Mirante Feliz) O ônibus vence a Rua Jacuí. Quando chega a Av. Cristiano Machado, observo que o letreiro do Hotel Ouro Minas já não é tão iluminado como antes. Por falar nisso, há seis anos, nessa região dos Bairros Ipiranga e União, a Avenida tinha mais árvores. Hoje tem mais passarelas e concreto em formato de viaduto. Achei feio.  Por salvação, um fusca emparelha com o 1509. Fusca azul, bem conservado, fazendo 60 por hora. Um senhor barbudo é quem dirige. E nem sei o motivo, mas tive a impressão – por um momento – de que serei como este senhor sereno quando estiver com 70. Gostei.

(Casa Mirante Feliz) Gostei ainda mais de ser recebido em casa. Pai, mãe, irmão. Ganhei cheiros e abraços. Como senti falta do meu porto seguro. Revi Belo Horizonte, agora da minha varanda. Lembrei de meus amigos. Agradeci...

¹. Sander Kelsen é jornalista, reside em Belo Horizonte. Atualmente trabalha na PUC TV, produz reportagens especiais para o Canal Futura e textos como freelancer para outros veículos de comunicação.

 
Elke Maravilha: Itabirana de coração, com pós-graduação na escola do mundo PDF Imprimir E-mail

elke1Feito estampa, os traços russos e alemães marcam de forma expressiva a dona de uma personalidade marcante, mesmo aos 66 anos. “O que a gente fez de si, ó, está na cara, meu amor.”

O ano era o de 1945 quando veio a este mundo. Uma época em que a humanidade viu o poder de destruição de uma bomba atômica. E é por isso que ela se considera uma filha da guerra. Muitos não sabem, mas Elke Grunnupp Evremides, ou melhor, Elke Maravilha, nasceu na Rússia. É filha de uma nobre e de um prisioneiro. Veio para o Brasil aos seis anos. Os pais dela queriam uma vida mais digna, longe das dores, de hostilidades, das lutas entre os povos e da perseguição.  “Para fugir da guerra, meu pai teve três países para escolher. Eram nações que acolhiam os imigrantes na época: Brasil, Nova Zelândia e o Canadá (...) Ele sempre soube. E dizia que o Brasil era o país das infinitas possibilidades reais!”, conta Elke.

Vivendo hoje em um apartamento de paredes vermelhas no bairro do Leme, próximo a Copacabana, no Rio de Janeiro, Elke mostra com muito carinho um quadro. Nele, o poema de Itamar Assunção, “Apátrida de Itabira”. Um título que faz Maravilha rever algumas páginas de seu livro da vida.

Quando a família desembarcou na Baía de Guanabara, ficou de quarentena. Uma tentativa de evitar a disseminação das doenças de outros países. O pai de Elke, George Grunnupp, decidiu-se por trabalhar no campo. Depois de publicar um anúncio em um jornal, recebeu uma proposta de emprego para cuidar de uma fazenda em Itabira do Mato Dentro.

“Digo que fui desmamada no alambique. Adoro cachaça de Minas!”, diz. Entre um copo e outro da mais pura branquinha, Elke se lembra que o pai era bastante exigente em tudo. Ela tinha que ouvir música clássica todos os dias. O pai ainda ensinou a menina outras línguas. Uma garantia de emprego para o futuro. “Ao completar 12 anos, papai quis que eu arranjasse um emprego para seguir minha vida de forma independente. Tive que me virar. Aí virei professora. E era muito boa na arte de ensinar.”, finaliza.

Foi assim que se mudou de Itabira para Belo Horizonte e, mais tarde para o Rio. Experimentou outras áreas: de professora a bancária. (Nesse caso, ela estava andando na rua quando uma pessoa lhe disse, ‘Você quer vir trabalhar aqui, no atendimento às pessoas?’ E, claro, logo ela respondeu: sim!”). E De bancária a modelo, aos vinte e poucos anos de idade. “Eu nunca escolhi o que ia fazer na vida. Sempre fui a escolhida.” Elke fez sucesso nos desfiles e trabalhou para importantes estilistas nas décadas de 1960 e 1970. “A primeira vez que entrei em uma passarela, parei e pensei: Meu Deus, o que é que estou fazendo aqui? Aí, pensei de novo e tinha uma resposta. Quer saber, já que estou aqui, vou ser eu mesma. E disseram que tinha inovado por causa disso!”. (Você pode imaginar como Elke era nas passarelas?) Elke tem experiência de vida. Mas é apátrida, sem nacionalidade – Isso por causa  de uma manifestação contrária que fez a ditadura militar nos anos 70.  Da poesia de Itamar, “Elke, mulher maravilha, Albira catalã, pop star mineira da Síria, curió corruíra, Orquídea baunilha”.

Programa do Chacrinha: Uma Elke Maravilha!

Mas Elke ficou conhecida mesmo em todo o Brasil no programa do Chacrinha. Para boa parte do público, a jurada do programa vestia roupas estranhas... Mas tinha uma simpatia ímpar! Quando foi convidada para ir ao programa, não sabia nada sobre o Velho Guerreiro. Aliás, apenas que ele era um fenômeno de comunicação. Antes de ir, leu algo sobre o perfil do apresentador e resolveu colocar em prática o que fazia e tinha de melhor: o inusitado, a alegria!  “Através de leituras, descobri a princípio que ele era um homem muito doido com uma roupa legal. E agora? Então resolvi ir com uma buzina... era uma buzina indiana, pedi a produção do programa que arranjasse uma e entrei no palco buzinando! Depois disso ficamos amigos... ele nunca me chamou só de Elke, mas sim de Elke Maravilha”, conta sorrindo.

Painho era como Elke Maravilha chamava Chacrinha. São tempos que ela não esquece. Para quem viveu essa época, Elke relembra. “Eu fazia parte do programa do Chacrinha… Não entendi muito aquela bagunça e percebi que não tinha que entender… Ele era um gênio, verdadeiro representante da cultura brasileira. Ele é de libra, de Pernambuco… E sempre me inspirei também nos pernambucanos… Chacrinha era um pastoril, um velho matraca… um nordestino.”

O enelke2contro com o conterrâneo Drummond

O encontro de Elke Maravilha com Carlos Drummond de Andrade foi em uma Avenida movimentada no Rio de Janeiro, há quase 35 anos. Elke confessa que sempre teve vontade de conhecer Drummond. Quando o viu, estremeceu. Ele veio na direção dela e disse, “Elke, como pode, vejo você na TV. Você é mineira! Mas muito diferente... Sua alma é muito diferente de uma alma Itabirana. Mineiro é aberto até a página 2. E você não tem nada disso! Sempre falante, comunicativa”.  Mas Elke, de coração mineiro e para a surpresa de Drummond, afirmou. “Uai, Drummond, eu nasci na Rússia, né? E genética não tem jeito, não se nega.”

Do meu encontro com Elke

Uma mandala, um queijo minas, um colar e cachaça. Presentes das Gerais, comprados no Mercado Central de Belo Horizonte. Elke recebeu tudo isso distribuindo abraços apertados. Eu e meus amigos passamos pela sala. (Uma verdadeira obra de arte, com seus quadros, fotos...) Conclusão ao olhar aquele ambiente? Na arte da convivência, Elke tem doutorado na escola da vida. Espiritualista, gosta de falar dos signos dos zodíacos. E como bom mineiro, conta uma história bem contata.

Elke é universal. Em russo, Elke significa Alce. O “Maravilha” foi um presente de um amigo jornalista. Depois de se sentar na cama, pega várias fotos e nos mostra suas montagens, esse jeito que ela se apresenta ao mundo. Uma chama atenção. É uma fotografia que cai entre os dedos dela. "Essa aqui é em homenagem a Iemanjá! Linda!" A conversa durou cerca de 8 horas. Nenhum detalhe foi esquecido. “Eu não tenho medo de ficar velha. Só não gostaria de ficar ultrapassada. Sou de hábitos simples. Gosto de ler pessoas. Gosto de conviver com pessoas.”

 
Itabira Analítica PDF Imprimir E-mail

(Por: Sander Kelsen¹)

No centro histórico, um registro para não esquecer de meus caminhos.Espírito aventureiro. Descobri que a gentileza é um ato de se permitir. São diálogos de alguns minutos, com o coração aberto, as mãos limpas e a consciência tranqüila. O mapa da vida está em todos. Está em tudo. Através de sorrisos, gestos, harmonia! Da segunda vez que entrei, pedi permissão, reparei nos detalhes. A charmosa placa que indicava o caminho também falava que estava perto. Eu me remexo, deixo suspiros, me contradigo e ganho merecido descanso quando estou na doce estrada de poucos quilômetros que me leva à Itabira. Seus traços leves e ao mesmo tempo carregados de lirismo e minério me mostram um mundo de infinitas possibilidades reais. Eles me fazem pensar em um futuro de três tempos: o próximo, o distante e o muito distante. E nisso percebo uma só vida. Mesmo única, é imponente e cheia de graça. A cada paisagem contemplada, recordo e reforço uma palavra esquecida: essência.

Está em casa. Você sabe que está em Itabira quando o relógio marca seis horas e o velho rádio, aquele em cima da mesa, anuncia a Ave Maria. Um cheiro de café toma conta e o aroma que nasce da união entre a água e o pó lhe convida a sentar. Ora comer um pedaço de broa, ora um pedaço de queijo – intercalados pela boa prosa, pela amizade. Você mira o horizonte e vê que as árvores no quintal se espreguiçam com a última brisa da tarde. O sol se despede, sem julgamentos, indo dormir em um verdadeiro aconchego entre as montanhas.

Descobre que não é preciso correr atrás de uma receita para a felicidade e o amor. Sem medo de reiterar, o amor e a felicidade estão presentes na magia de todo dia bem perto de você. Basta deixar o coração bater sem medo.

Indicadores Culturais

Paixão e fé – Milton Nascimento “A igreja está chamando seus fiéis. Nas varandas, vejo as moças e os lençóis enquanto passa a procissão. Velejar, velejei.”

(http://www.youtube.com/watch?v=dl1CNQx7R-4)

Legenda da Foto

1) No centro histórico, um registro para não esquecer de meus caminhos.

¹. Sander Kelsen é jornalista, reside em Belo Horizonte. Atualmente trabalha na PUC TV, produz reportagens especiais para o Canal Futura e textos como freelancer para outros veículos de comunicação.

 



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